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Toca o despertador. Início de um novo dia. Exatamente o dia em que nasci, porém anos mais tarde. Era o meu aniversário! Algumas mensagens de texto foram armazenadas e lidas no meu smartphone. Algumas pessoas mais próximas se lembraram da minha breve existência. O dia não tem nada de especial. É apenas mais um dia, mais uma data, mais um ano.

Lembro de quando era criança. Os aniversários se resumiam em presentes e festas. Era muito bom, mesmo ganhando aqueles presentes horríveis que os parentes menos íntimos insistem em nos dar achando que vamos gostar. Não me esqueço, as vezes tinha vontade de jogar no lixo o presente na mesma hora em que o abria. Será que eu sou anormal? Não importava muito jogar fora ou não, alguns presentes eram sempre mais especiais e ocupavam o melhor lugar da cama.

Não era agradável ver os amiguinhos com inveja de alguns presentes. Não era agradável saber que pelo menos um presente havia sumido durante a festa. Mas mesmo assim era bom saber que as pessoas se dirigiam até minha casa para me desejar um feliz aniversário. Muitos iam pela comida, muitos iam porque eram meus amigos. Mas o tempo passa. Chego até onde estou hoje. As coisas mudaram. Eu cresci e a sociedade também.

Abro meu facebook. Tenho mais de mil amigos adicionados. Ganho parabéns de pelo menos 25% de todos os supostos amigos. Posso afirmar que desses 25% apenas metade realmente se importou em dizer algo além do tradicional “feliz aniversário”. Que droga, eu sei que muitos foram apenas politicamente corretos e simpáticos e fazem isso todos os dias porque o facebook avisa. O pior disto, é que eu também faço exatamente como eles! Isto é péssimo.

Este é o retrato da nossa geração. Amizades virtuais que se baseiam em um ícone de  “joinha”. Eu não ganho mais presentes, eu não faço mais festas grandes. Eu decidi dar valor àquelas pessoas que realmente sentem prazer em dizer: “meus parabéns, é bom compartilhar a vida com você”. O melhor presente que estas pessoas me dão são abraços, olhos nos olhos e companhia. Eu realmente estou me decepcionando com a nossa geração. Mas feliz por saber que há esperança.

Estamos nos tornando escravos da tecnologia. Cada dia que passa nós nos tornamos mais máquinas, cumprindo protocolos e calendários. Até mesmo o aniversário se tornou sem valor. Mas ok, eu realmente sempre achei que aniversários são realmente algo sem tanto valor. Não preciso me basear neles para sentir pena da minha geração. Os dias passam pra todos, o que tem valor realmente é simplesmente o dia de hoje que posso compartilhar com alguém.

A vida é tão breve. Certa vez li um velho sábio que dizia que: “é melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa, pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério!” Ele sabia do que estava falando. Será que vamos chegar ao ponto de mandar um descanse em paz pelas redes sociais? Será que no dia do falecimento de alguém teremos o sentimento que a pessoa que se foi era apenas mais um que andava por ai?

Diante deste retrato de hoje. Estou até com saudades das festinhas infantis. Quem dera pudesse dar o valor não aos presentes que não gostava, mas às pessoas que tinham disposição de se lembrar de mim e vir ao meu encontro para demonstrar.  Naquele tempo eu não era um ser virtual.

A vida é um sopro. Em poucos dias termina o ano. E nós vamos fazer o que? Mandar feliz ano novo virtual ou vamos voltar ao mundo real? Aos meus amigos que me lêem, saibam que, no que depender de mim, nós vamos desfrutar juntos mais algumas festas, mais algumas tristezas, mais algumas brigas. Mas pelo menos vamos estar juntos de verdade.

Aos robotizados fica meu lamento. Continue cumprindo o protocolo. Continue apertando o botão “curtir”. Faça isto e talvez você ganhe um enterro mais barato do groupon que tem se tornado seu grande amigo. Faça isto e chore de solidão se precisar ficar num hospital enfermo. Faça isto e você terá uma vida que só não foi mais pobre porque o valor de um Apple é alto.

 
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Publicado por em 20/12/2011 em Textos

 

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Everybody Lies

“Everybody lies” não cansa de dizer o personagem Dr. House. Todo mundo mente. Todo mundo oculta a verdade. Todo mundo distorce a verdade. Será? Sabe, infelizmente eu acho que ele está certo. Nós seres humanos mentimos, e mentimos muito! Seria uma grande mentira caso eu dissesse o contrário. Mas decidi ser sincero por aqui.

Eu realmente não entendo o porquê isto acontece, o porque a mentira é tão saborosa e o porque quando estamos conversando com alguém nós simplesmente mentimos e quando percebemos, já foi. Não sei você, mas eu sou assim. Quero tentar pensar algumas questões sobre isto.

A mentira é conveniente. Sim, ela nos é vantajosa, geralmente quando mentimos estamos tirando vantagem de alguma situação. Seja nossa ou de algum terceiro, mas sempre estamos mentindo para contar vantagem de algo. Isto é completamente corriqueiro. Quando vamos contar uma situação ou somos confrontados a contar alguma coisa que aconteceu, nós sempre contamos algo que nos faz sermos melhores do que somos de fato, ou distorcemos um pouco para que a situação não fique tão chocante quanto ela realmente é.

A mentira é sutil. Sim, ela é delicada porque ela não precisa ser apenas escancarada como é a política brasileira, ela pode vir disfarçada, uma simples frase irreal colocada no meio de um discurso pode mudar toda a narrativa. Um “eu te amo” a menos ou a mais, pode gerar consequências em outra vida. A sutileza da mentira pode vir também como omissão da verdade ou simplesmente a distorção dela.

Estes dois exemplos talvez resumam o resto das “qualidades” da mentira, ela é protetora, pertinente, sedutora, maliciosa, tendenciosa, controladora, chegar a ser “necessária” em certos momentos. Isto é uma verdade, não é uma mentira. Corro muito o risco de ser generalista demais em meus textos, mas gosto de olhar pro macro ao invés do micro, mas procuro partir do meu mundo interno para o meu mundo exterior para perceber tais coisas.

Há pouco tempo uma revista conhecida no Brasil trouxe uma matéria de um cidadão que parou de mentir e disse que sua vida mudou pra pior quando parou. Ele dizia que seus amigos começaram a se afastar, ele foi perdendo espaço no trabalho e se tornou uma pessoa amarga. Olhando pra esta realidade eu realmente penso que o axioma do Dr. House se tornou uma verdade universal na nossa sociedade. Isto é lastimável.

Tomei uma decisão recente, lutar contra a mentira, ser sincero ao máximo com as pessoas ao meu redor, ser sincero ao extremo comigo mesmo. Quer saber? Não é fácil. Primeiro porque tenho visto em mim mais mentiras que verdades. Depois não é fácil porque as pessoas realmente não apreciam muito a verdade nua e crua, as pessoas dizem frequentemente ter fome de ouvir a verdade, mas raramente gostam do sabor quando ela lhes é servida.

Mas porque tanto medo da verdade? Porque ocultar tanto aquilo que é realidade? Porque nós nos melindramos tanto quando algo que nos fere é dito? Estou passando a acreditar que nossos relacionamentos são superficiais e pobres porque ocultamos demais a verdade. Em minha opinião a mentira esta intimamente ligada a relacionamento.

Acredito de fato que fomos criados pra nos relacionar. A vida está imbuída em relacionamentos. E chego à conclusão que a pobreza de nossas relações está (não apenas POR isto) ligada a esta dificuldade de dizer e encarar a verdade. Até quando seremos assim? Até quando vamos mentir uns aos outros para que tudo fique “bem”. As coisas não vão ficar bem, quanto mais se mente, mais necessidade de verdade existe em nosso inconsciente. Escrevo este texto não pra que você concorde ou ache que vou dar uma solução para a mentira. Escrevo com o intuito que você reflita sobre sua própria vida assim como eu tenho feito e veja o quanto a mentira esta ao redor de sua vida.

Certa vez ouvi que a verdade liberta. Eu realmente tenho visto o quanto isto é uma verdade. Se você se sentir preso lembre-se disto. A verdade liberta! Se você se sentir sozinho, saiba que aqui tem alguém que optou trilhar um caminho diferente do que está sendo trilhado, e não estou sozinho, tenho certeza disto e acredito que podemos sim ser mais sinceros. Saiba que não vai ser fácil, tanto dizer quanto ouvir a verdade pura é um tanto quanto pesado. A única coisa que posso dizer é que para vivermos numa cultura baseada na verdade devemos ser humildes. A verdade ouvida e dita com humildade e amor faz a diferença. Pode até deixar algumas marcas, mas nos fará muito mais humanos.

 
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Publicado por em 12/12/2011 em Textos

 

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Quintal

Num dia desses me lembrei do meu quintal, ele era tão grande! Eu me lembro o quanto eu podia correr por ele quando era criança, num piscar de olhos ele se tornava um campo de futebol, em outro um campo de guerra. Em algum momento da história eu cresci, e meus sonhos e minha imaginação foram se perdendo.

Aquilo que era tão grande e tão mágico se foi e eu nem percebi. Serei eu o único a sofrer com isto, ou a humanidade padece deste mesmo mal? Não me lembro ao certo quem foram, mas lembro que muitas pessoas contribuíram para que eu deixasse de fantasiar. Como um balde de água fria jogado na cabeça eu ouvia as duras palavras que diziam que eu era bobo por achar que tudo poderia ser diferente e mais alegre.

Inevitavelmente o tempo pareceu contribuir. Até os anos que demoravam tanto para passar agora voam diante dos meus olhos. Como pôde isto acontecer? Muitas vezes vejo o quanto a realidade reprimia meus pensamentos. Fui me tornando uma espécie de pessimista quando o assunto era fantasiar um futuro bom. Encontrei uma solução para não matar minha infância: livros, música e filmes. As fantasias socialmente aceitas eram o escape da minha imaginação.

Ainda lembro quantas vezes somente em meu pensamento eu me imaginava sendo um personagem a parte nas histórias que ouvia, ainda me lembro quantas vezes imaginei dançar aquela bela canção com uma mulher que me completasse. Mas este tipo de fantasia logo era sufocado por aquelas vozes que diziam: “pare de viajar moleque, você tem mais o que fazer”.

Realmente é duro não poder sonhar. Realmente é duro não poder fantasiar uma realidade alternativa. Não estou falando de ter poderes ou voar. Estou falando de coisas simples como poder sonhar em ter uma família estável com um bom casamento em meio a realidade dos divórcios e das famílias desestruturadas. Sonhar em viver um romance com diálogos inesquecíveis e olhares profundos em meio à realidade do coito sem compromisso.

Alguém pode me chamar de tolo por querer viver assim. Mas tenho certeza que todo ser humano sente saudades daquela infância que se perdeu. Mas acho que encontrei uma alternativa, observando as pessoas que se encontram apaixonadas vi o resgate das fantasias, as pessoas que se apaixonam carregam um brilho nos olhos e a certeza que as coisas serão diferentes que qualquer um pode notar. A paixão é o ponto de retorno de nossas esperanças.

Sendo assim, quero me apaixonar sempre, pela vida e pelas pessoas. Não quero viver apenas da fantasia de bons autores. Quero escrever minha própria história e compor minha própria canção. Vou enfrentar muitas coisas, disto tenho certeza, mas acredito que vai valer a pena. Agora me lembrei do meu quintal, ele realmente já não é tão grande, mas meu coração agora é, e como num sussurro já ouço ele me dizer: “é bom ter você de volta”.

 
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Publicado por em 04/12/2011 em Textos

 

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Ser

“O gato bebe leite, o rato como queijo, e eu sou palhaço” é a frase de Selton Mello com nariz vermelho em seu novo filme intitulado “O Palhaço”.  Talvez soe piegas, talvez passe despercebido, mas pra alguns será profundo. Não é novidade o anseio por simplesmente ser aquilo que nasceu pra ser, “ser ou não ser, eis a questão” já foi dito anteriormente e a velha trama continua. De conversas de bar à literatura clássica o ser humano continua na sua busca por simplesmente ser e ter alegria de viver sendo quem é.

E agora olhamos ao nosso redor e vemos uma cultura despersonalizada, vemos as várias tribos que impõe estilos de vida sutilmente através das mídias e coerções sociais, vemos os pais frustrados que ainda não são o que desejavam  ter sido impondo aos filhos seus próprios sonhos, vemos uma geração que se apega a personalidades de destaque simplesmente porque são belos ou são populares. Onde estão aqueles que deveriam ser?

Por outro lado vemos aquelas pessoas que são quem são, simplesmente porque são! Sabem o que gostam e o que não gostam, o que vestem e o que deixam de vestir, o que ouvem e o que assistem, lêem e relêem. Infelizmente estes são minorias, e é engraçado, geralmente estes, são considerados pessoas de “personalidade forte” por aqueles que os conhecem. No fundo são admirados, mas poucas vezes são agentes de influência para que outros sejam quem em sua essência deveriam ser.

Será mesmo tão difícil encontrar nossa vocação? Será mesmo tão complicado o autoconhecimento? Será mais fácil ser mais do mesmo para sumir em meio à multidão? Pense bem, não é estranho ver uma geração que anda uniformizada ao ponto de se confundirem uns com os outros? Talvez você me diga que estes já se encontraram e nisto encontrem prazer, eu respondo, talvez.

Penso que o cerne está no autoconhecimento. Entrar de cabeça e explorar a caverna escura do nosso interior. Escura, úmida, fria, solitária. Por isto tão difícil e ameaçadora. Temos medo de quem realmente somos porque somos piores do que gostaríamos de ser, temos medo de nos confrontar porque no fundo sabemos que somos fracos. Daí então fica mais fácil ser parte de um grupo que esconde seus defeitos, ser parte de um coletivo uniforme que não se diferencia e apenas segue o caminho já traçado.

Autoconhecimento dói. Dor de assumir quem se é de fato, dor de assumir que precisa de mudanças, dor de assumir que nem sempre será aplaudido ou parabenizado por ser você mesmo. E se tem tanta dor porque então buscar ser quem é? Será a dor o oposto da alegria? É muito mais fácil viver sem se enfrentar, é mais fácil negar sentimentos e intenções e substituí-las por prazeres momentâneos que nos levam pra longe da consciência. Pode até ser mais fácil, mas no fundo no fundo, todo mundo se depara com a verdade quando põe a cabeça no travesseiro.

Caso você não saiba quem realmente é, fica o conselho, busque esta resposta. Não tenha medo de se explorar, ouça o que as pessoas dizem sobre você sem o melindre e o “mimimi” que paira no ar de nossa sociedade. Pare para refletir se o que você tem feito realmente é conivente com seus gostos e desejos. Não tente começar com as coisas complexas, vá nas simples primeiro, comidas, cheiros e sons, livros, filmes e cor dos olhos. Não tenha medo, o resultado será uma vida mais cheia de significado.

O gato bebe leite, o rato come queijo, e eu não sou escritor (por mais que goste de escrever), não sou músico (por mais que goste de cantar), não sou atleta (por mais que goste de esporte), mas sou o que sou, alguém que busca se conhecer a cada dia que passa. Nessa caminhada não me é estranho sentir-me solitário, triste e confuso. Mas sigo íntegro em meu próprio ser, me afastando do que me corrompe pra me uniformizar.

Finalmente eu estou descobrindo o que sou, e talvez você também já está caminhando nesta direção, o cuidado maior é para que eu não me confunda em ser a função que me é inata e me esqueça que acima de tudo sou humano. Tenho o direito de errar e chorar. Tenho que me lembrar que no meu mais profundo ser, sou feito de pó da terra. E por isso posso tentar e tentar novamente até que eu deixe de respirar.

 
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Publicado por em 29/11/2011 em Textos

 

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O Décimo Primeiro

            Certo dia aquele homem percebeu o quanto estava sem dinheiro, trabalhava em dois empregos que o sobrecarregava,  isso fazia com que aos finais de semana ele só pensasse em descansar, mas na realidade os fins de semana ainda traziam obrigações dentro de casa. Ele estava esgotado, já estava perdendo as esperanças de uma vida tranquila, mesmo sabendo que dinheiro não era tudo na vida ele precisava desse esforço. Ao chegar em casa ele conversava com sua esposa que com muito amor entendia a situação, para ela também não era fácil, trabalhar o dia todo e cuidar dos três filhos é quase tão cansativo quanto correr uma maratona.

Era bonito ver como os pais se desdobravam para amar e cuidar dos três filhos, o tempo que sobrava para o descanso era todo dedicado aos filhos e o dinheiro que nunca sobrava (e sempre faltava) ainda dava para pelo menos tomar um sorvete com as crianças. Ele sabia que se deixasse as preocupações lhe abater, toda sua família seria desestruturada. Sabendo disso ele continuou sua rotina pesada com força e ânimo. Sua rotina continuava.

Em certa ocasião ele saiu um pouco atrasado de casa para o trabalho, deixou as crianças na escola, a esposa no trabalho e continuou sua rota, ele sabia que não iria adiantar correr, pois quem atrasa cinco minutos esta tão atrasado quanto quem atrasa vinte, atraso é atraso, ele apenas foi mais rápido que de costume. As ruas parecem mais longas quando se esta atrasado, era incrível, mas os semáforos pareciam ter combinado em ficarem todos vermelhos justo nesse dia, ele começou a perder a paciência e então começou a dirigir com mais agressividade.

Quando ele estava quase chegando decidiu pegar um atalho, fez uma curva num local proibido e então o pior aconteceu, um carro estava estacionando e ele não conseguiu desviar, o acidente aconteceu. Sua primeira reação foi de raiva, ele sabia que não deveria nem ter corrido tanto e nem feito aquela curva, antes mesmo de sair do carro ele respirou fundo, olhou para o carro que tinha batido e percebeu que era um carro muito mais caro que o seu, da raiva a tristeza em um piscar de olhos. Desceu do carro e já ouviu o primeiro palavrão do outro motorista. Abaixou a cabeça demonstrando que sabia que estava errado e não disse nada enquanto ouvia o motorista reclamar.

Após a exaltação inicial e o pequeno publico se reunir ele levanta a cabeça e diz para o dono do carro: “Meu senhor eu sei que estou errado, o senhor tem toda a razão de estar bravo, eu realmente errei e agora já esta feito, não adianta me ofender mais ou reclamar.” O  motorista então se acalma um pouco e percebe que não iria adiantar tanto nervosismo e percebe também a tristeza excessiva que se encontra nos olhos dele. O motorista o chama para conversar e não deixar as pessoas ao redor ouvir e diz: “Olha amigo, eu não sei o porque você precisou fazer esta curva e ainda mais o porque ser tão rápido, mas infelizmente o senhor vai ter que arcar com as conseqüências”.

Ao ouvir “arcar com as consequencias” seu coração acelerou, seu olhar ficou mais melancólico porque ele simplesmente não tem condições de pagar nada, em poucos segundos em sua cabeça só vem a palavra humildade. Ele olha pros olhos do motorista e diz: “Senhor, eu não tenho como te explicar, mas não tenho dinheiro, eu realmente estou sem jeito, o que eu ganho jamais vai pagar o que este acidente causou, me perdoe, por favor, eu sou pai de três crianças e trabalho em dois empregos, por favor, me perdoe”. O motorista antes mesmo de ouvir as palavras já sabia que aquele homem não estava mentindo, um olhar sincero pode traduzir muitas palavras, dentro de sua cabeça ele pensa que tem o seguro e que o correto a fazer é perdoar e tocar a vida, por outro lado ele sabe que a justiça precisa ser feita nestes casos. Num ato de piedade e até mesmo de impulso o motorista apenas põe a mão sobre os ombros dele e diz: “Você esta perdoado amigo, estas coisas acontecem, meu seguro vai cobrir os danos do meu carro, vá em paz”.

Aliviado ele entra no carro, seus sentimentos são confusos, alegria e vergonha misturado com gratidão e tristeza era o que ele conseguia discernir no turbilhão de emoções. Ele segue para seu trabalho com seu carro amassado. O dia passa e o sentimento continua difuso em seu coração. Ele reflete na importância do perdão, não havia como ele pagar realmente, o motorista poderia muito bem dizer que desculpava o erro dele, mas perdoar é muito mais profundo. Pedir desculpas é mais fácil, ele desculparia e mandaria pagar o carro, mas o ato de perdoar significava apagar o erro por completo como se nada tivesse acontecido. Ele se alegrou por saber que o perdão realmente existia.

O tempo foi passando e sua rotina continuava, seu carro continuava amassado e ele seguia tudo como sempre foi. Até que um dia seu chefe o chama em sua sala e diz que ele precisava ir embora urgente que um dos seus filhos havia sofrido um grave acidente. Ele se desespera e sai em direção ao hospital, pelo caminho ele fala com sua esposa que explica que seu filho mais velho estava brincando na rua e um carro o atropelou, ela diz que o estado dele é grave.

Neste momento o coração parece congelar com o medo de perder seu filho, há tantas informações em sua mente que ele simplesmente não consegue pensar em nada. Ele entra no hospital e vê sua mulher, ela esta chorando intensamente. Ele começa a chorar sem saber o que esta acontecendo e eles se abraçam. O médico por perto o fez perceber que seu filho havia falecido. Dor. A morte é irreparável. O seu primogênito havia ido embora para sempre. Ele desaba em lágrimas e sente uma dor inefável.

Após alguns minutos ele percebe que há outra pessoa extremamente triste além dele e de sua esposa naquela sala. Um homem vestido com uniforme de uma empresa, óculos e barba esta sentado com a cabeça baixa e com as roupas sujas de sangue. Ele tem certeza que foi aquele homem que atropelou seu filho. Provavelmente o ódio ganhou corpo no momento em que ele entendeu que aquele homem era o causador daquela infelicidade. Num ato de loucura ele vai até o homem sentado e antes mesmo de dizer qualquer palavra, o homem olha para ele com os olhos cheios de pavor e tristeza e apenas diz: “Me perdoe…”

 
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Publicado por em 15/08/2011 em Textos

 

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Banal

   Ah, o amor! Quantas pessoas não querem viver o tão aclamado e falado amor? Os livros românticos estão cheios de amor, as telenovelas, os seriados, as canções, todos sempre querem falar pelo menos um pouco do que é o amor. Mas afinal o que é o amor? O que é que nos faz sentir o amor em sua essência? Complexo ou fácil? As questões precisam esperar um pouco antes de me atrever a respondê-las.

Vivemos hoje na eufórica pós-modernidade. A tecnologia avança a passos largos, os fast-foods são marcas famosas e lucrativas, o dinheiro é sinônimo de status e as informações são transmitidas com uma velocidade impressionante. Este é só um breve retrato do meio em que vivemos e todos sabemos que é assim de fato. Não quero me deter em explicar com profundidade tudo o que a pós-modernidade trouxe e ainda vai trazer, minha proposta é dar este breve panorama para tratar de alguns temas que hoje são vividos de forma peculiares.

Vamos voltar a pensar juntos nas respostas para as perguntas iniciais. O amor em si talvez seja o sentimento mais nobre e sublime já criado e experimentado pela humanidade. O amor em si, de uma forma simplória pode ser definido como o estado de colocar uma outra pessoa (ou objeto, ou  animal, mas usarei somente pessoa) inteira e plenamente como prioridade ao invés de nós mesmos, digamos que amar é viver intensamente para a outra pessoa a ponto de perder nossa própria vida por ela. Não é tão simples responder o que é o amor, consultei vários amigos e as respostas foram tão diferentes quanto eles são diferentes uns dos outros, surgiram palavras interessantes nas respostas, palavras como tempo, entrega, sentido da vida, maravilhoso, enfim, se misturarmos tudo entenderemos o quão magnífico o amor é para as pessoas.

Ainda sinto que antes de partir para o que quero realmente dizer é preciso falar um pouco mais sobre o amor, perdoe-me caso eu esteja enrolando, mas julgo necessário. O amor é aquele sentimento intenso e que diferente da paixão não tem fim. O amor em si é a máxima expressão da bondade, da justiça, da paciência, da alegria e do respeito. O amor implica em gastar tempo com a pessoa amada. O amor perdoa qualquer coisa, espera qualquer coisa e crê acima de tudo. Creio que já é hora de seguir em frente, entendemos um pouco do que é o amor. Vamos prosseguir.

Agora cabe a nós pensar como o amor é vivenciado em nossos dias, tentarei abordar algumas áreas onde o amor é mais evidente para traduzir nosso pensar.


Vejamos bem a primeira área, o amor entre casais. Entre os jovens há um bom tempo existe um termo que é muito usado, “ficar”, este termo se refere a um ato de envolvimento interpessoal, onde duas pessoas se conhecem e se entregam ao prazer sem compromisso, a “ficada” pode se constituir de um simples beijo ou se envolver até o ato sexual, o “ficar” não requer que as duas pessoas se conheçam previamente. “Ficar” é não negar a vontade e o prazer do momento com a outra pessoa, o que acaba se tornando o primeiro passo do romance de nossa época.

Se “ficar” é o novo jeito de vivenciar o romance, se casar já virou uma “ficada” com responsabilidade, não quero generalizar, mas o número de divórcios cresce a cada dia. Casar-se e trocar juras de amor soa para muitos como coisa retrograda, hoje se pode “juntar”, morar na mesma casa ou quem sabe em casas diferentes mas manter uma relação de amor estável. Para muitos o casamento virou negócio, divisão de bens em alguns casos traz riquezas. O casamento hoje tem data marcada para início mas o divórcio é sempre uma opção e pode ser marcado com antecedência caso haja falha em uma das partes.

Os amigos se amam. Dizem por ai que o amor entre amigos é até mais bonito que o dos casais. Mas também vemos uma cultura de amigos virtuais crescendo cada vez mais. Amigos que sequer se conhecem pessoalmente, amigos que depois do primeiro desentendimento trocam de amigos. Há também o amor aos familiares, o mesmo amor que coloca os idosos no asilo e as crianças muitas vezes são encostos que vieram em má hora para atrapalhar a rotina.

O amor ao dinheiro. O dinheiro não é neutro, o dinheiro hoje é talvez o objeto (que ganhou status de pessoa) mais amado do mundo. Lembra de tudo o que foi dito sobre o amor agora pouco? Coloque o dinheiro ao invés de pessoa e pense se estou sendo exagerado.

Estaríamos de fato vivendo o amor? Quero dizer uma coisa: o amor está banalizado.

            Em todas as áreas citadas existem exceções, mas a sociedade atual consegue banalizar o amor, sei que o assunto é muito extenso e polêmico, mas vou citar sobre as áreas que falei. O conceito de ficar desfaz a mística do romance, hoje a paixão que é diferente do amor por ser mais intensa e passageira, atende aos apelos sexuais dos jovens sem qualquer respeito ou sinal de amor, vale se satisfazer e não colocar o outro em primeiro lugar, a juventude fica porque é descartável, fica porque não precisa se envolver e se doar como fazem os que amam. Se relacionar sexualmente ou afetivamente é tão fácil quanto comprar um lanche do McDonald’s, assim como é tão gostoso quanto comer o lanche. E então, os dois pombinhos apaixonados que acabaram de se conhecer soltam a velha e famosa frase: “Eu te amo!”. Ama nada! Não ama porque não conhece, não ama porque esta se colocando em primeiro lugar para satisfazer suas vontades e prazeres. O amor é mais que isso.

Prossigo dizendo que o amor dos casamentos virou piada de tirinhas de jornal. Se o amor teoricamente é pra não acabar, porque casar pensando no divórcio? O casamento que já foi algo simbólico e tão bonito para o amor hoje virou fato corriqueiro, existem pessoas que já se casaram pelo menos três vezes e ainda não sabem o que é o amor. Todo e qualquer casamento tem conflitos! O amor é o ingrediente que fará com que os envolvidos na relação enfrentem os conflitos e não abram mão de tudo por uma simples briga. O amor perdoa os erros do outro. O amor deixa o outro ser livre, e hoje sabemos que a piada é que “casou, acabou a festa, entrou na coleira”. O casamento esta banalizado junto com o amor. O que era tido como sacro hoje é tido como fraco. Isto tudo e nem vou me deter a falar dos casamentos que acabam porque um ou outro conhece o seu amor verdadeiro depois de estar casado, vai encontrar amor verdadeiro até morrer se não entender o amor.

Amar os amigos é fácil, difícil é amar os inimigos, já foi dito. Mas hoje nem os amigos são fáceis de amar. As relações de amizade geralmente estão baseadas em interesses. A pessoa se interessa em algo que a outra tem, se aproxima, usufrui daquilo, diz que ama o amigo (se estiver embriagado então troca juras de amor assim como um casal apaixonado faz) e então se o amigo perder aquilo que é de interesse, a amizade afrouxa. Ou então, dizer que ama o amigo, mas não sabe de fato quem é a outra pessoa e no dia que conhece mais a fundo e vê que o outro tem alguns defeitos, ai a amizade escoa pelo ralo. O amor banalizado na amizade é porque temos muito medo de nos envolver com outras pessoas, isto porque pessoas exigem muito de nós, é mais fácil falar de amor do que viver o amor que uma amizade requer. O bom amigo vai até o fim com o outro, o bom amigo é aquele que mostra os nossos erros por amor e não simplesmente passa por cima como se fosse tudo normal.

Enfim, chegamos ao fim. Quem domina quem? Nós dominamos o dinheiro ou o dinheiro nos domina? Quantos amores foram embora justamente por causa do dinheiro? O dinheiro em nossa sociedade não é só amado, é cultuado como nos cultos religiosos, é adorado como as divindades das sociedades são. O amor ao dinheiro conseguiu corromper e banalizar  nossa disposição de amar porque  nós permitimos. Amar pessoas é bobeira quando se tem dinheiro, amar outra pessoa enquanto posso usar quem eu quero por ter dinheiro é corriqueiro. O poder e a ganância estão atrelados ao dinheiro atualmente, por isso o dinheiro é tão amado. Temos a ilusão de que se tivermos dinheiro seremos amados, porém, seremos muito mais usados do que usaremos pessoas. A banalização do amor em muito se deve a supervalorização do dinheiro. Pense um pouco, você ama alguém de fato? Então você consegue abrir mão de TODO o seu dinheiro por ela? Se sua resposta for sim, você faz parte de uma resistência, se for não, você esta com valores invertidos.

Não devemos mais banalizar o amor, o amor deve ser um movimento constante em nossas vidas para que aprendamos dar valor justamente na vida! Devemos olhar para aqueles que foram mortos porque lutaram pelo amor em toda a história da humanidade e carregar suas bandeiras. Somente amando a nós mesmos conseguiremos entender que sem amor nós vamos esmorecer lentamente. Devemos lutar firmemente para que o amor se mantenha vivo entre os casais, entre os jovens, entre as famílias, entre os amigos, o amor deve permanecer amando pessoas e não o dinheiro. A minha luta é contra a banalização, não contra você. A minha luta é contra tudo o que tira a importância do amor nos dias de hoje e se esforce em provar que amar é utopia. Minha luta é para que o amor esteja vivo! Minha arma é o próprio amor. Escrever tudo isto me gera vontade de amar mais, e você lendo isto tudo, o que isto gera em você?

 
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Publicado por em 08/08/2011 em Textos

 

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O Décimo

Esta é apenas mais uma história, daquelas que estamos cansados de ouvir,

o final você já conhece, mas o que importa é como a história é contada.

Aquele homem estava chegando ao final de sua vida,

a pele enrugada e macia mostrava que ele já havia percorrido muitos quilômetros,

seus cabelos brancos já eram poucos, o tempo havia deixado sua marca.

Ele teve uma vida de aventuras, viajou pelo país e, muitas vezes, fez isto a pé,

difícil acreditar que hoje ele mal consegue andar,

mas caminhou de um estado a outro carregando em seu peito

sonhos e esperanças de uma vida melhor.

Ele conseguiu.

 Entre alegrias e tristezas viu mais do que imaginou que veria,

passou fome nas andanças, uma febre quase o matou,

mas foi salvo por um garimpeiro que também o empregou.

Ele era um amigo da estrada.

Em meio a tudo isto, aprendeu profissões,

sem estudo trabalhou no pesado, do garimpo a marcenaria

ele labutou como muitos outros fazem,

mas inteligente como era entendeu que aprender requer esforço,

aprendeu que podia ensinar,

para um homem sem estudo até aula dar era algo de que as pessoas tinham que admirar.

E fez, aprendeu a arte das imagens quando foi fotografar,

deu lições para crianças e adultos porque sabia como andar.

Este velho homem viu a vida por muitos prismas.

Nesta pequena longa jornada não faltou o tempero que faz a vida ser mais doce,

ele se apaixonou, roubou a noiva que estava prometida, saiu em fuga para não ser pego,

lutou para conseguir o tão sonhado casamento.

Logo que se casou, o casal no ventre encontrou uma nova forma de viver.

O que seria uma grande alegria virou um grande pesar quando ao nascer

o tão esperado bebê não podia respirar.

Morte fazia parte da estrada que ele caminhava.

Não cansado de tentar, o casal prosperou, tiveram seis filhos que a vida presenteou.

Ele entrava num caminho que nunca tinha traçado,

ser pai era pra ele uma caverna inexplorada.

Por tudo o que passou ele sabia que era alguém que merecia mais do que tinha,

orgulhoso consigo mesmo se gabou e forçou os filhos a serem aquilo que ele não foi.

Na caverna escura as pupilas dilatadas não vêem completamente o que deve ser visto,

os borrões aparecem e sempre a imaginação traduz da forma como quer.

Ele sabia em seu profundo que ser pai era tão difícil quanto viver pela estrada.

O tempo passou, ser avô já foi mais fácil,

o tempo lhe ensinara lições que ele deixou escapar com os próprios filhos.

 Hoje pela primeira vez ele chorou.

Viu aquela velha conhecida se aproximando,

ele se lembrou que era ela porque o seu primeiro fruto havia com ela pegado carona.

A morte estava tão perto que mandou sua mensageira tristeza dizer olá.

Ele num esforço de sua memória já tão afetada pelo tempo,

lembrou-se de tudo o que vivera e só enxergou seus erros.

Ele continuou a chorar.

Havia em seu pesar um tom de desespero, ele queria ter feito mais.

Ele se achou indigno de ter tudo o que tem.

Ele entendeu que ao longo da sua vida ele não criou raízes,

seus filhos já estavam pela estrada, os amigos foram passageiros como as folhas são.

Seu choro encontrou consolo ao olhar sua mulher já tão velha e tão perfeita.

Ela ainda era a mesma que um dia aceitou fugir.

Ela lembrou aquele homem que fugir sempre foi mais fácil

e o convidou para enfrentar o que quer que venha pela frente.

Ele sentiu depois de tantos anos o amor nascer de novo.

Com os olhos cheios de lágrimas se arrependeu mais uma vez

e sentiu que era tempo de recomeçar.

Mandou então chamar uma mensageira que estava longe há algum tempo

e pediu que levasse um recado.

A mensageira esperança disse para a tristeza que a morte é bem vinda,

pois o amor agora tomou conta do quarto que o medo desfrutou.

Com seu lenço enxugou as lágrimas,

esboçou um sorriso e viu sua linda princesa sorrir em retorno.

A estrada estava esperando os novos passos do viajante.

 
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Publicado por em 20/06/2011 em Textos

 

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